Entre o Céu e a Terra há uma dança


Em algum momento tudo pára.

Não a vida, porque ela segue,

Mas o que surge dela.


Assim como exalar é muito natural depois da inalação,

Parar deveria ser muito natural pra todos nós.


Mover e parar

Mover e parar…


Quando foi que nos perdemos disso?


Estamos com essa situação agora: lidar não só com a nossa inabilidade pra parar, como também pra lidar com as consequências de todo o movimento que foi levado ao excesso.


Mas isso não quer dizer que no meio desse caos não haja nada a nosso favor. Vivemos sem dúvida circunstâncias exigentes, mas o que temos do nosso lado é justamente a eletricidade desse momento: somos tocados e puxados pra “fazer” o que importa.


E o que importaria nesse momento?


Fazer menos

Observar mais

Saber menos

Sentir mais


Iniciar um tempo de mais contemplação.


Aprender a se relacionar com a pausa, que também significa abertura, suspense, mistério, silêncio, solitude, inspiração.

Vida que flui!


Mas é tempo de olhar pra isso com profundidade… e com alegria também, porque afinal, estamos nos abrindo para uma grande aventura. Quem sabe a gente consiga redescobrir a beleza (e leveza!) de se mover sem esforço e sem medo? Quem sabe a gente volte a dançar sobre a terra? Quem sabe?


Não há nenhuma razão pra deixarmos a vida simplesmente passar enquanto trabalhamos como loucos. Há muito mais do que isso! A vida e suas possibilidades são muito mais amplas e encantadoras do que essa rotina que inventamos (ou inventaram) pra nós. Muito melhor se nos abrirmos pra essas possibilidades cheias de vida e dançarmos intimamente com elas. Ai sim terá valido a pena. Não podemos morrer secos e ranzinzas.


Algumas coisas que podem nos ajudar nesse momento:


Conecte-se com seu corpo.

Tendo nascido, é ele quem te permite dia após dia estar aqui para ter as mais variadas experiências. Não faça dele um mero serviçal para suas maquinações abstratas. É urgente que você se assente nesse corpo de carne, ossos, nervos e se faça presente. Ele vai te ensinar muito. Vai te revelar muito!


Faça yoga, tai chi,

dance, caminhe,

descanse!


Se alimente bem, mas deixe espaço e tempo para se nutrir de outras coisas também. Beba bastante água pra que ela te hidrate, mas que também leve com ela tudo o que você não precisa mais.


Dê atenção a quem precisa, mas não perca a oportunidade de emancipar as pessoas, oferecendo chão pra que cada uma encontre sua inteireza. Não tome a vida de ninguém em suas mãos, jamais!


E por favor, seja feliz! Aconteça o que acontecer, não perca a alegria. Aí sim, você terá cuidado bem de si e será muito natural que sua existência faça bem aos outros e ao mundo!


Tome tempo pra desenvolver:


● Intimidade com o ócio

Parando sem culpa e sem medo

Se acostumando a ter tempo pra fazer NADA

Desenvolva a confiança na grande Terra abaixo dos teus pés,

Terra que também reside dentro de você.

É ela quem te sustenta!


● Intimidade com a solitude

Estar de boa consigo, sem precisar interagir o tempo todo. Saber relaxar com o coração aberto e as mãos vazias.


● Intimidade com o silêncio

Saber calar, exalar e apenas observar, sendo uma boa testemunha de si e de tudo o que ocorre. Intuir que a vida ocorre em Silêncio… que tudo surge do silêncio e a ele retorna.


● Intimidade com o que é natural

Deixe-se tocar pelos elementos não elaborados que estão ao seu redor. Aprecie mais o céu, as plantas, o vento, o canto dos pássaros, as árvores, a água (fora das garrafas!), o Sol e a Lua. Solte-se dos sinais elaborados como letras, números, símbolos, conversas e raciocínios, placas, rótulos, notícias, filmes, produtos, etc. Isso te ajudará enormemente a descansar, a fazer silêncio e a se sentir mais alegre e aberto pra vida. Tudo o que é elaborado e artificial (em excesso) vai te exaurir, manterá sua mente ocupada, avaliando, escolhendo e elaborando estratégias, sem nunca encontrar um chão gostoso pra descansar.


Na medida em que for se familiarizando e se nutrindo dessas qualidades, procure não ter pressa pra saber o que fazer. O “Não Saber” é abertura. É base para a lucidez e a criatividade. Quem apenas sabe ou sabe demais, perde a sanidade. Abra o olho!


Tome esse tempo pra se inspirar a partir de um novo lugar dentro de você… isso é fundamental se quisermos ver alguma mudança significativa para o futuro.


E então exale! Exale muito, emitindo um sonoro Ahhhhhh… deixando sair tudo! Um “AH” vindo do lugar mais fundo do teu ser. Depois de exalar faça uma pequena pausa, sentindo teus pés bem vivos no chão. Enraíze! A partir desse chão volte a inalar, sinta-se crescer e expandir, percebendo o céu acima e ao redor. Siga assim, sentindo o vem e vai do ar em teus pulmões… até surgir uma sensação de alívio no peito e no coração.


E aí, mansamente, olhe ao redor. Dê boas vindas a tudo e a todos e então vá! Aceite dançar com a vida. Ela está te convidando! Tome banho, lave louça, varra a casa, faça pão, vá caminhar, cozinhe, vá brincar com as crianças, cuide da horta, vá comer, fazer sua live, escrever, dormir, namorar. Ou fique onde está! Seja como for, saiba e sinta: ao teu redor, muitas possibilidades!


Guarde isso no coração: silêncio, abertura, movimento. Ao integrar essas três qualidades em tua vida, surgirá uma dança.


Só não tenha pressa

E o mais importante: depois que começar algo não se esqueça de parar!


Texto escrito no início da quarentena 03/2020

Por Márcia Baja